quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Um amigo a beira da mesa (parte 6)


Caminhando, passa por um bar vazio. Apenas um senhor sentado à mesa, lá no fundo conversando com ele mesmo. Ele entra no bar, vai até o balcão e pede um cigarro e uma lata de cerveja.
 - Cigarro não tem. Você vai querer a cerveja? Diz o dono do bar.
 - Sim.
Olha rapidamente para o senhor no fundo e percebe que está fumando. Pega a lata de cerveja, e retira do bolso todas as moedas que tem.
 - R$ 0,50 + 0,10 + 0,25 + 0,10 + 0,05 + 0,25. Tenho apenas 1,25. Fique com a cerveja.
Em seguida ouve um barulho de moeda caindo próximo ao seu pé. Quando olha para baixo, R$ 0,50 centavos vindo da mesa do fundo. Ele paga a cerveja, e vai em direção a mesa e devolve o troco.
 - Sente-se rapaz. – diz o velho olhando para o copo de conhaque.
Ele puxa uma cadeira da mesa ao lado e senta. O velho lhe diz:
 - Desculpe a intromissão, só queria ajudar.
Jogando as moedas em cima da mesa, agradece e toma um gole da cerveja quente.
 - Eu sou o Pedro. Qual é o seu nome?
O velho fica em silêncio. Ergue a cabeça e olha dentro dos seus olhos.
 - Olha rapaz, não quero a sua amizade, não quero ser simpático. Apenas quero conversar um pouco. Eu sei que, quando você se levantar dessa mesa, não vai lembrar o meu nome, se é que ainda se lembra.
 - Você não me disse o seu nome! Mas obrigado pela gentileza. Não precisava ter feito aquilo. Por que fez?
 - Já passei por situações diversas rapaz. Uma delas foi idêntica a essa, sempre tinha alguém pra me socorrer. Porque não ajudarei alguém que precisa? Vai. Pegue um cigarro. Sei que você está sem.
 - Como sabe? Não sabe nem o meu nome!
 - Quais foram as primeiras palavras que você disse ao chegar nesse bar?
Pensou por um tempo.
 – Não sei. Pedi a cerveja, acho.
 - Preciso de um cigarro e uma cerveja. Foi isso que você disse – Retrucou o velho voltando a olhar para o copo. Sabe, as vezes estamos tão cheios de coisas fúteis na cabeça que não percebemos as coisas simples que fazemos. Pedir um cigarro e uma cerveja no bar e depois de 7 minutos não se lembrar? Comece a se preocupar.
 - Com o que?
 - Não sei, mas se preocupe.
Pegou o maço de cima da mesa e tirou um cigarro. Acendeu com a bituca do cigarro do velho. Deu a primeira tragada como se aquela fosse a ultima vez que estivesse respirando.

(continua...)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Enfim o mundo real (parte 5)

O sol clareia o quarto no dia seguinte. O calor insuportável fez que o colchão ficasse molhado de suor. Sonolento ele, quase sem se mexer, estica o braço e pega o maço com o último cigarro que estava na cabeceira da cama, ao lado do relógio. Já eram 13:31 da tarde.

Fuma o cigarro pensando no que acontecera na noite passada. Tentava se lembrar de detalhes. Detalhes que não aconteceram. Foi tudo tão rápido. Lembrou-se perfeitamente do rosto da garota. Seu olhar brilhante. Deixando de lado essa besteira com medo de estar louco, veste-se com uma roupa qualquer. Jeans desbotado, camiseta branca simples e um tênis rasgado. Ao sair do apartamento, vê um mundo que jamais imaginou existir. Carros passando, pessoas indo para todos os lados. Barulhos dos mais diversos. Decide fechar os olhos e começar a girar em círculos em cima da calçada. Ao parar, abre os olhos novamente.

- É nesta direção que vou.

(continua...)

domingo, 29 de maio de 2011

Uma visita inesperada (parte 4)

Naquele momento não havia apenas o ruído de sua respiração. Outra respiração se entrelaçava complicando a si mesmo. Aqueles lábios, aqueles olhos brilhantes estavam ali. Olhando para ele como se não tivesse nada alem do colchão fino coberto pelo lençol cinza e rasgado.
- Tudo que queremos, podemos, se assim fizermos como nos mandam - disse a garota sentada.
Rapidamente ele se levantou e deu com as costas em um armário que fica encostado no canto esquerdo do quarto.
- O que faz aqui? Perguntou ele sem se quer abrir a boca. Essas palavras ecoavam de suas narinas e ele não tinha o controle delas. Nem se quer havia pensado que as letras O, Q, U, E, F, A, Z, I formasse uma frase. Quem diria ainda uma pergunta. Geralmente uma pergunta se faz para alguém que você quer que responda.
Assustado, abaixou-se até o chão para ver se podia tocar com as mãos o carpete. Ficou mais feliz quando percebeu que conseguia. Mas em menos de um minuto, se levantou esfregando suas mãos na roupa rapidamente para tirar a sujeira que havia grudado nos dedos.
- Sujeira? disse ela ainda sentada, apenas observando a cena.
- Que sujeira?
- Essa em suas mãos. Não vai me dizer que não está vendo?
- Não.
- Então porque está limpando-as em sua roupa?
- Quem está limpando?
- Eu.

No momento em que ela falou "eu", lá estava atrás dele, abraçada ao seu corpo. O relógio marcava 22:47.

(continua...)

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Manipular sonhos? (parte 3)

Não se assustou com o barulho embora no quarto estivesse totalmente silêncio e apenas o ruído de sua respiração parecia ensurdecedor. Começou a pensar naquela mulher que tinha visto anteriormente. Cabelos abaixo do ombro, escuros, olhos brilhantes como a de uma criança ao ver um espetáculo de fogos na beira da praia numa virada de ano. Seu sorriso era lindo, inesquecível. Era tanto que estava pensando nela naquele momento. Por alguns instantes sem a sua consciência, o tempo parava e aquele minuto em que parecia ser tão rápido, se tornava uma eternidade. Tudo ficava tão lento que não havia mais ninguém ali naquele momento. Apenas seus olhos e a boca dela. Lentamente foi pegando no sono sem precisar da ajuda dos comprimidos que tomava todas as noites para não precisar pensar em manipular seus sonhos. Isso tudo para ele era uma viagem sem sentido. Manipular os sonhos. Quem se importaria com uma besteira dessas? Quem acreditaria que isso seja possível. Não seria ele o louco de achar que todos lhe apontariam como louco se descobrissem uma coisa dessas. Sem perceber, traços finos começaram a passar em sua frente como plumas que voassem e no seu caminho deixassem marcas formando alguma coisa. Cada vez que abria lentamente os olhos os traços ficavam mais fortes. Como seria possível? Você está dormindo! Os traços faziam parte do sonho. E a realidade era mais viva. Um barulho se fez.

A cama levemente se inclinou como se alguém sentasse ao seu lado.
(continua...)

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

"Morte de minuto" (parte 2)

Alguns minutos antes, não conseguia sentir suas pernas, apenas uma vontade incontrolável de rir e chorar ao mesmo tempo. Sentimento esse que não podia escolher durante a morte de minuto. Esse foi o nome que deu para esse momento. "Morte de minuto". Será porque dura apenas um minuto? Ou porque geralmente as pessoas acham que um minuto é pouco tempo para se esperar? O minuto pode ser pouco como pode ser muito. Depende do que se faz com ele. Sentou na cama baixa onde tinha um colchão fino e frio. Apenas um lençol fino, cinza e rasgado separava sua pele desse pedaço de espuma. Com as luzes apagadas desde a mudança de cômodo, relaxou e soltou o tronco até que sua nuca encostasse no colchão fino, sentindo uma leve dor ao pegar no estrado.

O relógio na parede marcava 22h46...
(continua...)

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domingo, 29 de julho de 2007

Numa cadeira vazia cabe tudo! (parte 1)

“Levante.
Aproveite para se vestir enquanto ainda pode.
Seja rápido.
Logo não sentirá mais o seu corpo.
Segure nas paredes.
Agora o que tem a fazer é chorar, essa é sua hora. Pouco a pouco verá muitas coisas passando pela sua cabeça, mas nada além do que já viveu. Nada além do que já sofreu. Sorrisos podem vir, assim como lágrimas amargas e salgadas. O gosto de sangue que sentiu certa vez passará pela sua garganta. Realmente, chegou à hora.”


Isso é tudo que realmente ele sentiu a levantar-se de uma cadeira onde esperava a pessoa dos seus sonhos. Sonho que logo mais iria sonhar sem saber o que realmente iria esperar. Cada noite ele pensava em algo diferente. Tentava sempre manipular seus sonhos. Certa vez um velho, negro, 67 anos, cabelos curtos, olhos negros (mais pareciam claros pela luz que refletia de um quadro pendurado na parede). No quadro existiam duas pessoas. Abraçadas pareciam ser da família. Uma casinha de madeira atrás e uma lua jamais vista por olhos humanos. O velho com a voz rouca e tossida pelo pigarro do cigarro lhe dizia: “O sonho nada mais é do que a última coisa lembrada do seu subconsciente! Você pode manipular seus sonhos e sonhar o que quiser. Basta se concentrar no que deseja e pensar, pensar até não conseguir pensar mais. Essa informação entrará para o seu cérebro e continuará sem que você perceba, tão rápido que pode durar 3 segundos, como podem durar 8 horas insanas e cansativas. Só depende de você”.

Saiu então do cômodo em que estava e caminhou normalmente ao quarto.
(continua...)

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